Testemunhos

Testemunho quer dizer: aquilo que eu disse e que ninguém nunca vai dizer igual.*

Esta seção é composta por um conjunto de textos referidos ao percurso de uma análise com relação à sua conclusão. Foram produzidos, apresentados e publicados no contexto do dispositivo institucional inventado por Jacques Lacan e por ele denominado passe.

Aquele que declara ter chegado ao fim de sua análise narra seu percurso a dois colegas. Eles transmitem seu relato a um pequeno grupo de analistas que já tenham participado, de alguma forma, deste procedimento. Esse pequeno grupo busca apreender a demonstração da conclusão, mas também como cada um foi tocado pelo que só se transmite nas entrelinhas. Quando é este o caso, aquele que procurou o dispositivo do passe deverá prosseguir retomando sua análise e sua conclusão, endereçando, agora, os testemunhos dessa virada essencial ao coletivo de analistas a que Lacan nomeou Escola, durante o período de três anos, recebendo a nomeação de AE, analista da Escola, no decorrer deste tempo.

O passe é uma experiência em curso na Associação Mundial de Psicanálise, incidindo diretamente sobre a comunidade formada pelas sete Escolas que a compõem e que se orientam igualmente pelo modo como, e ele curso a crientação lacaniana, Jacques-Alain Miller destaca as linhas de força do ensino de Jacques Lacan. Nada do que segue seria possível sem meu trabalho quotidiano nessa comunidade, representada, entre nós, pela Escola Brasileira de Psicanálise.

Testemunhos em português
Testimonios en español


Este trabalho retoma a trajetória psicanalítica do autor desde sua primeira até sua última análise. É a primeira apresentação após a travessia do Passe. O autor vai desde a infância até os últimos anos de análise. O texto traz uma palavra que foi composta de vários elementos que traduzem o novo valor do gozo após a análise, o termo neológico mordidavida. 


Este texto apresenta o percurso de uma psicanálise dando ênfase no modo como os elementos recalcados de uma história puderam ser redescobertos e permitiram uma abertura ao novo, distanciando o autor da repetição baseada na certeza de um destino traçado. Ao mesmo tempo, o texto interroga a função da escrita em psicanálise e os conceitos de letra, objeto e sinthoma no ensino de Jacques Lacan.


Quem não conhece os primeiros acordes da quinta sinfonia de Beethoven? “Tcham-tcham-tcham Tchaam… E novamente: Tcham-tcham-tcham TCHAAAM… As maiúsculas e reticências são o que de melhor se pode fazer no plano do texto para traduzir o intenso resultado dessa sequência sonora. Creio que ela se presta à maravilha para presentificar o efeito do que Lacan chamou de pulsão invocante. É uma experiência de certeza. Somos intimados, mesmo que não se saiba bem por quem nem para quê. Foi com relação a essa exigência cega e sem corpo que a análise permitiu uma modulação, uma pequena separação que mudou minha história.


O texto resume o modo como Lacan define a função fálica, associada a seu conceito de Nome-do-Pai, para interrogar o objeto fálico em uma análise para além de sua função de negativação do gozo no modo peculiar que é definido pelo Édipo freudiano. Passagens da análise do autor são retoadas para propor que o falo mantém seu papel de negativação, no entanto não mais atrelado ao sentidos e valores da constelação familiar edípica.


Este texto examina a relação entre os conceitos de real, desejo e letra no ensino de Jacques Lacan. Como modo de abordar estes conceitos, utiliza-se a análise do autor, da qual algumas passagens são narradas e examinadas a partir do dispositivo institucional criado por Lacan conhecdo como testemunho de passe. 


Este texto retoma desenvolvimentos de testemunhos anteriores do mesmo autor e resume um longo percurso de análise em três etapas. A primeira envolvendo o trauma que encontrou seu limite na impossibilidade responder à demanda de reparação da perda traumática. A segunda destacando como, mesmo mantendo-se no campo do trauma e da perda, foi possível encontrar uma satisfação nova. A terceira permitiu abrir-se a um campo de possibilidades fora deste campo, aberta à continência do encontro de maneira até então impossível.


Nos testemunhos de minha análise verifico a cada vez como neles se trata sempre da mesma coisa. Todos buscam transmitir como pude me aproximar de meu sintoma o bastante para vivê-lo como estranheza mais amiga que incômoda. Se digo, “me aproximar” e não “resolver” ou “alterar” é porque, no essencial, o sintoma não muda. Mesmo assim é possível deixar o âmbito da repetição. Ele se apresentará, então, mais como variações sobre o mesmo tema, ou melhor, como um tema que insiste em um sem número de variações sem nunca consistir em nenhuma delas. A repetição e as variações não são a mesma coisa. No primeiro caso o impossível cala, no segundo faz falar.


Este texto apresenta um testemunho de passe, o relato de um fragmento da análise no autor, em que se visa o ponto em que a análise contou com elementos de linguagem fora do sentido para seu desfecho. Com este fim o autor parte da oposição entre as imagens que se apoiam nos significados compartilhados e naquelas que incluem o que a eles escapa. Destas últimas serão destacadas aquelas relacionadas ao modo de apreensão da relação do autor com seu pai em análise, por outro, as trazidas por um hai-cai de Bashô.


Pensei em apresentar a vocês meu “lado mãe” e o modo como ele foi tratado em análise. Sempre fui mais filho; com as dificuldades de praxe pude ser pai; mas me orgulho de ter podido sentir um pouco do que ouço no que me contam as mães. Quando falo em meu “lado mãe” quero me aproximar, neste universo, de outra coisa, de um desmedido do amor que responde por muitas dores e delícias do que costumamos chamar “maternidade”.


O que a análise trouxe, em termos concretos, a meus dias? Em que mexeu com meu corpo? Considero que ela lhe trouxe uma satisfação extra. Não apenas um gozo “a mais”, mas um gozo imprevisto ou, como diz G. Rosa, “o leite que a vaca não prometeu”, o gozo do sinthoma (com th) nos termos de Lacan



Escogí un instante también, el de la interpretación de un sueño. Lo esencial no fue tanto el sueño, su relato o desciframiento, sino el nuevo destino dado a mi inconsciente, que continúa trabajando, pero ganó otro lugar en mi vida. No puedo, sin embargo, contar el sueño sin un poco del contexto, un poco de historia. Preciso intentar meterlos en mi jaula, si no, no se verá cómo se abrió la puerta.


El cuerpo que tenemos, resulta de un encuentro entre el exceso que nos habita y la incidencia del Otro en nuestras vidas. El trazado de este encuentro, entre goce y significante, define nuestra cartografía corporal, de lo que será y lo que no será posible en términos de placer y de dolor.


¿Quién no conoce los primeros acordes de la quinta sinfonía de Beethoven? Cha-cha-chachaan… Y nuevamente: cha-cha-cha CHAAN… Las mayúsculas y los puntos suspensivos son lo que mejor se puede hacer en el plano del texto para traducir el intenso resultado de esa secuencia sonora. Creo que se presta maravillosamente para presentificar el efecto de lo que Lacan llamó “pulsión invocante”. Es una experiencia de certeza. Somos intimados, incluso aunque no se sepa bien ni por quién ni para qué. Fue en relación a esa exigencia ciega y sin cuerpo que el análisis permitió una modulación, una pequeña separación que cambió mi historia.


Este texto examina la relación entre los conceptos de lo real, el deseo y la letra en la enseñanza de Jacques Lacan. Como forma de aproximación a estos conceptos, se utiliza el análisis del autor, del que se narran algunos pasajes que son examinados desde el punto de vista del dispositivo institucional creado por Lacan conocido como testimonio de passe.


Este texto retoma desarrollos de testimonios anteriores del mismo autor y resume un largo recorrido de análisis en tres etapas. La primera se refiere al trauma que encontró su límite en la imposibilidad de responder a la demanda de reparación de la pérdida traumática.La segunda puso de relieve cómo, a pesar de permanecer en el campo del trauma y la pérdida, era posible encontrar nuevas satisfacciones. La tercera hizo posible abrirse a un campo de posibilidades fuera de este campo, abierto a la continencia del encuentro de un modo que hasta entonces había sido imposible.


Volver a ver mis testimonios me hace recordar cómo en ellos se trata siempre de lo mismo. Todos intentan transmitir cómo pude aproximarme a mi síntoma lo suficiente para vivirlo como una extrañeza, más amiga que incómoda. Quiero destacar sin embargo cuánto eso se da fuera del ámbito de la repetición, como variaciones sobre el mismo tema, o, mejor, como un tema que insiste en un sin número de variaciones sin consistir nunca en ninguna de ellas. La repetición y las variaciones no son lo mismo. En el primer caso lo imposible calla, en el segundo hace hablar.


Este texto presenta el testimonio de un pase, el relato de un fragmento del análisis del autor, dirigido al punto en el que el análisis se basó en elementos del lenguaje ajenos al significado para su resultado. Para ello, el autor parte de la oposición entre las imágenes que se basan en significados compartidos y las que incluyen lo que se les escapa. De estas últimas, se destacarán en el análisis las relacionadas con la aprehensión por parte del autor de la relación con su padre y, por otro lado, las provocadas por un hai-cai de Bashô.


*REGO BARROS, R. Sobre os grupos. IV Encontro Americano, 2009.